Essas mulheres...

O nosso blog está renovado em novo formato. Vamos continuar divulgando mulheres vencedoras, pioneiras, líderes e que venceram com seus talentos nos mais diversos segmentos da sociedade e que hoje brilham, ocupam o pódio antes reservado aos homens. A mulher cangaceira aqui, não tem o sentido exato da palavra (aquela que andava em bandos com cangaceiros), mas significando liderança, vitória conquistada através do valor individual. Entretanto, a proposta inicial permanece: destacar as mulheres que de alguma maneira se envolveram com o Cangaço “sem perder a ternura”. Todas são Marias Bonitas.

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a cangaceira suicida

  Ainda era bem cedo quando Rosalva andava com certa dificuldade e cuidado para não derrubar os baldes com água que apanhara na cacimba a cinco quilômetros de casa. Levava um na cabeça e dois em cada mão. Coisa de equilibrista. A moça tinha intimidade com esse serviço, pois era sua obrigação de todos os dias. E ainda conseguia cantarolar. Geralmente tinha companhia, mas nesse dia, ela voltava só e seu canto foi interrompido quando dois homens surgiram na sua frente. Rosalva estremeceu. Reconheceu que eram cangaceiros. Assustada, jogou os baldes no chão e saiu em disparada e os cangaceiros atrás. Os homens não alcançaram a jovem logo, pois com 16 anos, tinha agilidade e força nas pernas. Presa pelos dois, não tinha como resistir. Foi desvirginada por eles. Terminado o ato, ela não pensou duas vezes e disse em tom decidido: “vou com vocês! Não adianta voltar para casa, pois ninguém vai se casar comigo. Estou perdida”. Os cangaceiros relutaram em aceitar a inesperada companheira, mas não havia outro jeito. E foi assim, que Rosalva entrou no bando. Sua tarefa era fazer o apanhado, ou seja, recolher os objetos furtados e dividir com o grupo. E numa dessas vezes, ao entrar numa casa invadida, Rosalva se deparou com uma mulher grávida ensandecida, que partiu para cima dela com uma faca e cortou feio o seu braço. Rosalva gritou de dor, e o cangaceiro Roxinho tentou socorrer a companheira chutando a faca. Viu então, que a agressora estava grávida e entregou a arma dizendo – mate a vagabunda! Rosalva, sabia que a ordem era para ser cumprida, mas a...

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78 anos depois….

Maria Bonita jamais poderia imaginar que os versos da música que a chamava para tomar café, iriam ser tão reais. Ela acordou sim, mas não tomou o café, porque a polícia chegou, pois já “estava de pé ”. Assim cantava a música e assim aconteceu. Foi numa quinta-feira chuvosa, ao amanhecer de 1938, julho, dia 28.  Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros, ainda sonolentos foram “acordados” com a rajada de metralhadora em cima deles. Assustados, alguns conseguiram escapar do massacre correndo por trás da grota.  Lampião e sua Maria foram os primeiros a morrer, inclusive degolados.  Maria, a bonita, foi degolada ainda viva. A notícia se espalhou com rapidez, mesmo numa época de comunicação precária. A partir daí, o casal ganhou notoriedade, versões sobre morte e vida, sobretudo no Cordel. E nasceu o mito. E hoje, 78 anos depois (parece que foi ontem), a fama de Lampião permanece acesa. No Nordeste, as lembranças pipocam em forma de teatro, palestras, missas, documentários etc. E Maria Bonita faz parte desse contexto. A grota de Angico, fica em Sergipe nas proximidades do Rio São Francisco e era “porto” seguro para o bando, mas a traição de um coiteiro deu um final trágico a essa história.  Insatisfeitos com as mortes, a volante se voltou para a caça ao tesouro levando todas as joias e dinheiro guardados nos bornais. As orações de proteção, entre elas, a da Pedra Cristalina que o casal levava junto foram deixadas no chão sangrento junto com os corpos e os cachorros ensanguentados. As cabeças foram cortadas e exibidas em público como troféus conquistados numa olimpíada. Foi uma vitória...

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A TRISTEZA DE LAURA

  Para ser cangaceira precisava ter também um pouco de sorte. Primeiro, pelo companheiro, depois para livrar-se das doenças e da  morte prematura. Laura Alves, alagoana, uma morena pequena, era o que se pode dizer  de não ter sorte no amor. Abandonada pelo noivo, mesmo com casamento marcado, a moça entrou numa tristeza profunda. O pai, descobriu que a filha perdera a virgindade e como castigo, teve prisão domiciliar por muito tempo. Não colocava a cabeça fora de casa.   Um dia, porém, Laura conheceu umas cangaceiras que estiveram em sua casa e, interessou-se pela vida delas. E não pensou duas vezes: entrar no bando, mesmo sem ter companheiro. Se aquelas moças aguentavam a vida dura no Cangaço, ela suportaria também. Qualquer vida fora daquela prisão era bem-vinda. E partiu. No início, a mais nova integrante do grupo, escolheu o cangaceiro Moita Brava, mas veio uma outra decepção. Ele não aceitou….Conversou com os cangaceiros solteiros até chegar em Boa Vista, nascido Manoel dos Santos. Deu certo. Mesmo “casada”, Laura não demonstrava alegria. Sempre calada e bem-comportada. Recebeu o apelido de Doninha. Anos depois, sumiu do Cangaço e foi morar no Sul da Bahia. Calada e sem alegria, pois a rejeição do noivo a atormentou até o fim da...

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HIPÁTIA DE ALEXANDRIA

  Assim era chamada essa  mulher  considerada pioneira na matemática no que  se refere a geometria, álgebra e astronomia. Aprimorou o astrolábio (instrumento que mostra as posições das estrelas no firmamento), estudou em Atenas entre alunos homens e, por isso, vestia-se com uma túnica branca, igual aos sacerdotes. Filha de Theón, um respeitado filósofo, diretor do Museu de Alexandria e dele, recebeu todo incentivo. Hipátia, que significa maior em grego, desafiou as regras do seu tempo 355 e 415 d.C. com suas posições polêmicas. Avançada nas pesquisas filosóficas neoplatônicas, provocava debates acirrados como o movimento dos planetas e sobretudo, afirmando que “ a Terra gira em círculos em torno do Sol e este se aproxima e se afasta da Terra, gerando as quatro estações do ano”. Básico, para hoje, mas nos anos 400  d.C., não. Era quase uma heresia. A maior façanha de Hipátia, foi tornar a geometria compreensível. Desenvolveu o hidrómetro  utilizado na navegação. Muito além do seu tempo,  ela dirigia a sua carruagem, um assombro, pois tal tarefa era exclusiva dos homens. Hipátia teve ainda forte influência na política com seus ensinamentos e costumava dizer que “era melhor pensar errado, do que não pensar”. Excelente na dialética, suas invenções e maneira de pensar, irritavam  Cirilo, um patriarca  católico fervoroso que conseguiu enfurecer uma multidão contra Hipátia. Além de herege, era bruxa. Assim, essa multidão movida a intolerância religiosa a derrubou da carruagem, arrancou-lhe a pele com conchas e a queimaram numa fogueira, que era o destino das bruxas. Ela tinha 66 anos, deixou vários livros e tratados sobre álgebra e matemática e que, mais tarde, foram destruídos....

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A PRIMEIRA ADVOGADA

Desde criança Myrtes revelou que não iria ser uma mulher do lar. Estudiosa, conseguia tirar  as melhores notas, e, mais tarde, escandalizou a família ao revelar que iria deixar Macaé, cidade onde nasceu em 1875 para estudar direito no Rio de Janeiro. Quebrou a resistência dos pais e foi em busca do seu objetivo. Conseguiu. Terminou o curso em 1892, mas somente em 1906,  Myrtes Gomes de Campos ingressou na OAB devido às discriminações. A sua primeira atuação no Tribunal do Júri foi sensação e motivo de curiosidade popular. Todos os jornais noticiaram. Populares  lotaram a sala para ver “uma mulher advogada”. Seu poder de argumentação surpreendeu e seu constituinte foi posto em liberdade para surpresa de todos. Certamente esperavam  insegurança de sua parte. A partir daí, a presença de Myrtes era atração certa no Tribunal de Júri. Convidada pelo Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), ela assinava coluna  e escrevia artigos na área jurídica, sempre defendendo o voto feminino, o serviço militar, o aborto, direitos femininos em geral que deveriam estar na Constituição. Casamento e maternidade não eram as únicas opções das mulheres, pregava. Entretanto, em Pernambuco, no ano de  1888 duas mulheres estudaram direito: Maria Coelho S. Sobrinha e Delmira Secundina. No ano seguinte, foi à vez de Maria Augusta  Vasconcelos, mas nenhuma delas seguiu a profissão. Myrtes se aposentou em 1944 e deixou sua história na área jurídica do...

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