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CASAMENTO DO ANO

Histórias de amor, geralmente têm final feliz. Mas esta foge à regra até mesmo da proposta do blog, mas vale pelo ineditismo. Parece ficção, mas não é.  Trata-se de Diacuí, uma índia da tribo kalapalo, lá do Alto do Xingu, Mato Grosso (o Estado ainda não era dividido) e que só os maiores de 60 anos conheceram e vão se lembrar.

Era o ano de 1952 quando o funcionário da Fundação Brasil Central, Aires  da Cunha  foi transferido para o posto indígena nas imediações da  tribo  kalapo onde  ele  conheceu  Diacuí,  uma jovem e bela índia, filha do cacique Avaguie Hipio. Aires se  apaixonou perdidamente pela índia e  queria a todo custo casar com ela. O seu nome na  língua indígena significa flor do campo.

A notícia se espalhou rapidamente e,  a revista O Cruzeiro explorou bem. Passou a publicar fotos da índia nua, usando só colares ao lado de Aires. A tribo kalapalo era dona de  centenas de alqueires de terras e falava  o dialeto  karib. Aires não teve dificuldades em se aproximar da índia, uma vez que a tribo já estava acostumada com os brancos, através do trabalho dos  irmãos sertanistas Vilas Boas desde  1945.  Aires não falava Karib e nem Diacuí  português, mas isso não foi impedimento para o romance.  Era o assunto do momento e até foi dito  que Aires tinha interesse nas terras do sogro.  O fato é que o  pai de Diacuí  permitiu o namoro e por consequência, o casamento que aconteceu no Rio de Janeiro, na Igreja da Candelária a 29 de novembro de 1952.

A  “flor do campo” surgiu na igreja totalmente “civilizada”. Vestida de noiva, penteada,  de sapatos, maquiada à moda dos brancos. Uma outra pessoa. Conservou apenas o sorriso ingênuo.  Parecia coisa de novela de tevê.  “Uma cinderela tropical”. Diacuí virou notícia nacional e sua fama extrapolou as fronteiras do Brasil.

A cerimônia contou com a presença de 10 mil pessoas entre grã-finos, índios e curiosos. Foi o grande assunto da imprensa e o casamento só pode ser realizado com a interferência de Assis Chateubriand, o todo poderoso  dos Diarios Associados, a grande mídia da época.  O ato “foi mais ruidoso que  as bodas de D. Pedro II”, escreveu um colunista.

Os impedimentos eram muitos,  desde o Serviço de Proteção ao Índio, passando  pela Igreja Católica até esbarrar no Código Civil do Brasil. Em todos, não havia permissão da união entre branco com índio, mas  os obstáculos foram removidos um a um graças ao empenho de  Chateaubriand escolhido por Aires para ser o padrinho do casal. Após o casamento, os noivos voltaram para o Xingu levando muitos presentes. E, como era de se espera, Diacuí ficou grávida. Mas teve um parto complicado e não resistiu. Era agosto de 1953. A criança foi salva e recebeu o nome da mãe. Aires, não  estava na hora do parto. Viajou poucos  antes e só retornou  dias após com Diacuí já enterrada.

A imprensa se voltou contra o sertanista acusando-o de omissão. Sabendo que sua mulher estava às vésperas de dar a luz viajou para uma distância de 600 km.  De volta, sua reação foi tirar fotos junto ao túmulo da mulher chorando  e levar a  criança. Não se  soube mais do paradeiro deles.  Mas o jornalista Mário Moraes descobriu a pequena Diacuí casualmente  em 1958,  na cidade de  Uruguaina, Rio Grande do Sul.  A presença da menina era comentada na cidade e estava sob os cuidados da avó paterna. Moraes chegou a ver a menina. Diacuí Câmara da Cunha,  a filha, se viva for deve estar com 60 anos.  A fama de sua mãe teve seus momentos de glória que foram curtos e praticamente acabou com o sepultamento. Hoje ninguém mais fala nela.

A história da “flor do campo” era cantada em todo Brasil,  através da dupla Ihana e Cascatinha, uma guarânia  composta por Zé Fortuna e Pitangueira.

Um dos versos diz:

Linda Diacuí/ das selvas em flor/ Veio se ajoelhar/Diante do altar/Por um grande amor/ Leve com você/Quem tanto de quis…..







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